
Retrato-Miniatura de António Correia Caldeira com 28 anos, pintado, em 1843, por José de Almeida Santos.
Uma fissura na parede do tempo separa o que é do que poderia ser. É isso a literatura. Um retrato que poderia ser de Garrett usurpou o retrato que sabemos ser de Garrett. O que alimentou esta ficção? O desejo de que fosse Garrett. Mas não o Garrett que conhecemos: um outro que reunisse em si o Garrett que conhecemos e a promessa de um outro Garrett, desconhecido. Um Garrett novo, de óculos. Era uma nova intimidade que se abria. Um Garrett de óculos que, olhando-nos, nos veria, a nós, estimados leitores, também de modo diferente, vendo talvez não o que somos mas o que poderíamos ser, ou ter sido. Vendo bem, poderia ser Garrett. Olhando bem, não poderia ser Garrett. Se fosse, saberíamos que poderia não ser. Sabendo que não é, percebemos que poderia ser. Sabendo que não é, nem se parece com Garrett. Mas não sabendo, que romance!
(texto escrito por Jorge Colaço, grande amigo deste blog que acompanhou a história do retrato desde o início)
Os nossos leitores terão talvez reparado na desconfiguração do cabeçalho e da coluna da esquerda além de outros problemas na apresentação gráfica deste blog, ocorrida nos últimos dias.
Esta "avaria", e há males que vêm por bem, terá sido o alerta de que era chegada a hora de retirar do cabeçalho um retrato que nos parecia ser de Garrett. Procurámos confirmar e agora sabemos que não é.
Agradecemos ao Professor Doutor Joaquim Veríssimo Serrão, Presidente da Academia Portuguesa da História, a quem pedimos ajuda e que gentilmente nos respondeu :
"A condecoração que enlaça o personagem (a tratar-se mesmo de Almeida
Garrett) não pode deixar de ser a Grã-Cruz da Ordem de Nossa Senhora de Vila Viçosa. Todavia, consultando a obra de António Belard da Fonseca, A Ordem Militar de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa (Fundação da Casa de Bragança, Lisboa, 1955) o nome do escritor não aparece no rol dos agraciados com Grã Cruzes entre 1820 e 1854 (pp 4-7), nem dos que receberam a Comenda da Ordem (até 1855), (pp 33-47)
Permite essa lacuna indagar: o retrato em questão será do 1º Visconde de Almeida Garrett ou de alguém que tivesse vivido na sua intimidade ?"
Ao consultar hoje a referida obra na Biblioteca do Museu Militar descobrimos que António José Marques Correia Caldeira (1815 -1876) recebeu a Comenda da Ordem a 19 de Julho de 1843.
António Correia Caldeira era casado com Maria José Deslandes (1831-1923), IRMÃ de Venâncio Augusto Deslandes, no espólio de quem se encontravam os recém descobertos manuscritos do Romanceiro de Almeida Garrett, o retrato miniatura e as fotografias do cunhado aqui reproduzidas.
Santos pintou a miniatura de António Correia Caldeira com 28 anos, em 1843. Ainda não existia a fotografia que apareceu poucos anos mais tarde.

António Correia Caldeira com cerca de 40 anos

António Correia Caldeira com cerca de 60 anos.
A condecoração foi a chave da descoberta.


Pode saber mais sobre a ordem no Dicionário Histórico de Portugal.
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FOR THE RECORD
SANTOS (José de Almeida)
Ilustre pintor portuense e miniaturista distintíssimo, de quem ainda se encontram alguns retratos em marfim, além de caixas de rapé com figuras e alegorias políticas.
É, sobre a sua obra datada, pelos anos em que o artista floresceu, que temos de calcular hipotéticamente a trajectória da sua vida. (....)
O artista, que firma os quadros a óleo Almeida Santos, no retrato-miniatura emprega apenas Santos e algumas vezes Stos.
Júlio Brandão, Miniaturas Portuguesas, Litografia Nacional Porto